Rue Morgue

Rue Morgue

 

Já era tarde de outono quando Sophia esticando os músculos de modo fácil pela primeira vez depois do voo intercontinental da Air-France entre Rio e Paris olhou o saguão do Charles de Gaulle, a forçosa escolha pela viajem era refletida na sua face de cansaço que não se devia ao longo voo, mas sim a penosa decisão de se refugiar e se esconder de si mesma com a desculpa de uma especialização na Sorbonne após o seu mal fadado relacionamento com o seu namoradinho de infância ter acabado ao chegar um dia mais cedo do trabalho e pegá-lo literalmente mamando nas tetas da vaca de sua prima, a cada segundo ela mentia a si mesmo que isso era o melhor que acontecera em sua vida. Após uma longa espera no controle de passaporte e da humilhação de ter as suas roupas intimas reviradas na alfandega por um funcionário qualquer de aspecto grotescamente caricato de um gordinho baixote que não teria como olha-la nos olhos sem a ajuda de um banco, ela seguiu para a área de saída a procura de um taxi após se livrar de todos os entraves burocráticos do aeroporto. Com vergonha de seu mal fadado francês escondeu-se atrás de um papel para informar ao motorista o local de sua estadia, a viagem foi relativamente rápida dando a oportunidade de ver parte do que só havia visto principalmente via foto de sua amiga e anfitrião na cidade Luz, a amiga gaúcha Anita atendeu de pronto a amiga que ligou para avisar a ela que estava a caminho, mas no fundo era como todo mundo nessa situação e apenas não queria ficar aguardando no hall de entrada do prédio e ser bisbilhotada pelos moradores locais, a amiga disse que já estava a sua espera e que tinha uma surpresa, tá bom, foi a miserável resposta de sua boca cansada de surpresas, após encontrar sozinho o apartamento que seria a sua moradia provisória o toque da campainha foi escutada por um milagre já que em alto e bom som dava para ouvir os berros femininos vindos através da porta. Não houve como negar o convite para a balada da noite, se fosse para esquecer o passado que fosse naquele mesmo dia ela dizia interiormente para si em sua solidão. Chegando ao local era um pardieiro com ar de modernidade parecido com qualquer inferninho de musica eletrônica, e a noite ia passando, até pouco antes da meia noite as doses de absinto fizeram o efeito indesejável e a ida ao banheiro feminino apenas aumentou o seu nível de enjoo, o cheiro fétido da falta de limpeza junto com a visão de um coito grupal de mulheres por entre o que ela julgou ser cocaína sendo consumida com canudos de quinhentos euros só serviu para aumentar a sensação de vomito a ser expelido, mas que ficara contido como que um nó em sua garganta a sua única saída era sair do local e vomitar talvez em um beco que tinha observado antes de entrar na antessala do pecado. A Rue Morgue estava vazia e coberta por uma leve neblina de um cheiro peculiar que ela não reconhecia, a ida ao beco foi um santo remédio para a sua reabilitação, mas o gosto pútrido de suas entranhas ainda invadia a sua boca, a saída foi uma espécie de piano bar que estava com as portas abertas a poucos metros à sua frente, era um ambiente mais convidativo para beber algo que retirasse o fétido fel, ao entrar o ambiente intimista lhe foi prazerosamente familiar apesar de não saber o que lhe motivava esse sentimento, parecia noite dedicada ao tango, vários casais dançavam ao ritmo portenho roubado de Paris, pediu um simples refrigerante ao barman e passou a observar com mais detalhes o ambiente, não se passaram muitos segundos até que detrás de uma cortina negra como a noite saiu um homem estupidamente sedutor que retirou todo o folego que ela havia recuperado, seus olhos queimavam como fogo pelo desejo, os olhares não levaram mais de um segundo para se cruzarem até o Dom Juan de Sophia se mover para se aproximar perto dela. Como uma simples presa hipnotizada ela não se moveu e apenas observou o seu terno impecável que só poderia ter sido feito por um antigo alfaiate italiano, e os seus sapatos pretos que refletiam a luz como uns espelhos que também deviam ser italianos, o seu rosto de Siciliano era claramente distinguível em suas características, passou despercebido mas à pista se limpou por si só com a retirada dos frequentadores mais antigos, apenas um casal perdido de turistas belgas que se arrastavam de modo desajeitado ficou a perturbar a cena, com um gesto que pedia a mão da moça para uma dança, ela tentou mover os lábios mas com outro gesto de quem pede silêncio feito por ele impediu qualquer recusa sua. O seu tango nunca praticado foi perfeito, uma marionete conduzida com delicadeza e maestria pelo silencioso homem a quem ela naquele bailar já havia decidido se ele oferecesse ser o homem que enterraria a sua paixão juvenil em algum quarto frio de Paris, ela nem notou os olhares de pavor dos homens daquele salão, sem uma palavra ele a conduziu após a dança até um dos andares superiores, quando a porta se abriu a visão de um quarto digno de rainha só lhe deu a certeza de ser o local de sua primeira alegria em solo francês, a noite foi longa em êxtases mutualmente trocados, não houve palavras apenas gemidos de parte a parte. O doce raiar do sol que perturbava a sua visão ainda preguiçosa de acordar foi o que a motivou a se levantar, ainda com os olhos fechados ela se sentou a beira da cama e olhou para o seu leito de prazer, não havia nada, somente uma mancha negra no local onde deveria estar o seu amante de uma noite que ela nunca esqueceria por causa dos orgasmos nunca sentidos como antes em sua vida, recolheu as suas roupas e se descolou até uma porta que julgava ser o banheiro, o que havia de belo no quarto de seus sonhos, havia também de nojento no banheiro em que entrara, somente lavou o rosto e saiu com o pensamento de o porquê os franceses terem problemas com a limpeza dos banheiros. Quando ao fechar a porta teve a sua atenção voltada ao quarto, o mais frio arrepio passou pela sua alma, não saíra no mesmo quarto, mas isso não era o mais aterrorizador, como manchas em suas paredes velhas se notava as cenas da noite descritas como uma história em quadrinhos, era ela não havia duvidas, mas ao tentar ver cada opera da obra ela seguiu os olhos até a ultima descrição. A cena de uma besta indescritível saindo de sua barriga, como se fosse ela a mãe dessa criatura. Aos prantos ela saiu do quarto carregando a sua roupa ainda na mão, somente no corredor ela terminou de se recompor as suas vestes, já que o seu espirito ainda estava perdido naquilo tudo. O piano bar não existia, era apenas uma casa abandonada habitada por mendigos e viciados das ruas parisienses. O seu pavor só aumentava. Saindo correndo daquele local com o máximo de velocidade que seus sapatos salto 15 permitiam, ela pegou o primeiro taxi que passou perto do local. O que se passou depois? Saberemos somente daqui a nove meses. Já que foi nessa ultima noite que tudo isso aconteceu.

Anita.

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