De Março a Abril de 1970

Já se fazia se sentir os ares do outono com temperaturas amenas e todas as crianças na primeira hora da tarde já se faziam presentes antes da chegada dos professores à escola, os alunos que moravam mais perto não demostravam cansaço apesar das dificuldades dos caminhos que levavam de suas casas até a escolinha rural e grande maioria delas desacompanhadas de seus pais ao contrário das demais que com o zelo e desconfiança e pelo percurso das distâncias maiores eram levadas a cavalo pelo pai ou pelo irmão mais velho da família já que na época carro ainda era luxo apenas de grandes proprietários de terra ou arrendatários que exploravam os seus “colonos”.

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A Professora Maria Medeiros chegou antes acompanhada de seu pai, conhecido pela alcunha de “véio” Medeiros, fazendeiro gaúcho da velha escola e com todos os seus costumes trazidos da herança do passado que ainda teimavam em ser presente apesar da mudança dos tempos e de todos os sinais de que estavam obsoletos, mas ainda eram eles que apesar de tudo ainda dominavam com suas influências a estrutura do tecido social da comunidade, apesar de estarem perdendo espaço e importância na condução das coisas que se apresentavam com a expansão da comunicação, mas como bom déspota das suas convicções acompanhava a filha para o seu primeiro dia de aula.

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A “bella” filha do fazendeiro com apreensão e medo o que era algo compreensível visto que o novo afazer diário apesar de ser de seu desejo e da preparação realizada para assumir o cargo de professora alfabetizante trazia dentro de si uma falta de traquejo ao lidar com pessoas estranhas e aquelas pequenas crianças eram um desafio novo na sua rotina diária e fazia no sei íntimo força para não demonstrar o nervosismo diante desta mudança de rotina.

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O primeiro dia foi complicado e os minutos se passaram lentamente, a sorte da professorinha é que na época as crianças já vinham de casa com um grande sentido de respeito para com os adultos o que a ajudou até o momento de alívio em que a sineta soou para o intervalo dando a ela um momento de descanso em sua cadeira para um instante de relaxamento enquanto sorvia um copo de água, o quê também não interrompeu a sua revisão silenciosa de tudo que ocorreu naquela primeira parte da sua jornada de trabalho e mentalmente se lembrou de cada reação das crianças a sua postura e o sentimento de estar sendo julgada e observada por todas elas desde o primeiro segundo que se apresentou a seus alunos isto foi a tônica de seu pensar perdido e olhar vago que ocupava toda a sua atenção que nem percebera o meu pai parado a porta há perguntar como ela estava e com uma resposta vaga ela respondeu qualquer coisa sem notar ou dar muita importância.

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Antes do término do intervalo dirigiu-se a sala dos professores para pegar mais giz para a continuação da aula e quando passou pela porta si deparou com os demais professores que fumavam e tomavam café e teve o sentimento de pressa para sair logo da presença de tantas pessoas desconhecidas, mas a diretora da escola a convidou para um café e educadamente ela aceitou e sentou-se na cadeira mais afastada da grande mesa central longe dos demais professores, entre um gole e outro acabou notando o Professor Guerra a quem tinha sido apresentada antes do início do período escolar, que estava a falar e demonstrar todo o seu ar de rapaz recém-chegado da cidade grande e apesar de toda a sua altivez e beleza que diferenciava do restante dos demais, aliás, foram poucos homens que a filha do “véio” Medeiros conheceu antes daquele dia e apesar da sua aparência de homem do seu tempo e com a sua tentativa de imitar nos pequenos detalhes quê o permitiam se parecer com o seu ídolo, Elvis Presley, a quem a moça de cândida beleza nunca havia ouvido falar quanto mais escutá-lo, nada a interessou, pelo contrário toda a sua diferença do que a moça estava acostumada apenas acentuou uma antipatia gratuita e pré-concebida que criou de pronto uma barreira mesmo com olhos furtivos que ele lançou durante os poucos minutos passados até o final do intervalo e a retomada da aula da tarde.

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A segunda parte da aula passou mais rápido, a professorinha nem se deu conta do tempo o que obrigou1359567331_477877124_5-Ford-rural-4x4-1976-Veiculos as crianças a correrem quando a sineta soou para guardar os seus parcos materiais escolares que eram quase impagáveis por alguns pais e todos se despediram de modo ordeiro o que hoje é inconcebível, ao se dirigir até a porta da sala de aula ela observou o seu pai que deixou de lado a pose de gaúcho tradicionalista a cavalo e veio buscá-la com a maravilha mecânica da época para a região, uma camioneta rural de qual conforto era um dos poucos proprietários na região e que ainda causava por onde passava com o veiculo o fenômeno dos trabalhadores rurais (pessoas humildes que só através de rádio ouviam falar de carros) ainda paravam os seus afazeres para observar a novidade, o mais surpreendente na cena foi observar o contraste de seu pai vestido todo a caráter com bota e bombacha e sem esquecer o lenço vermelho no pescoço e seu novo colega de profissão conversando, o Professor Guerra que com sua calça jeans e camisa branca com seu penteado a lá Elvis e toda a sua pinta de rapaz sedutor formava com o seu pai um resumo das mudanças à vista no horizonte do tempo tanto na vida da minha mãe como nos costumes de todos.

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O “véio” Medeiros como bom senhor de si e desconfiado como toda geração mais antiga ainda mais no interior naquela época não teve confiança na simpatia do Professor novato que se apresentou e ficou a puxar conversa e desde aquele momento passou a observar o comportamento dele.

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Os dias foram passando e as cenas foram quase as mesma na escola sendo as únicas diferenças o ganho de confiança da Professora junto a seus alunos e o aumento de interesse do “Guerra” que durante as noites na casa de sua tia onde estava morando na época, só na ajuda da montagem novamente do quadro para o amigo, esta era uma casa grande e antiga de madeira construída nos moldes das casas de colonização italiana na serra gaúcha com um grande muro de pedras onde ele passava a pensar na colega de trabalho a quem estava a cada dia e sem perceber si apaixonando e deixando-se se enlaçar em uma história desenhada em suas horas de solidão na cama a montando um enredo para o futuro, duvido que em algum momento ele tenha sequer passado perto dos fatos que se sucederão.

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Com o tempo o Guerra acabou por se trair e deixar de modo explícito ao menos ao pai da moça que este nutria mais que uma mera amizade e temendo ter no seio da família um objeto estranho que não cabia na sua visão de marido para a sua filha, mesmo que essa ingenuamente nem tivesse notado nada ainda, mas já começara a pagar no inicio do mês de abril com discussões pelas preocupação de seu pai pelo comportamento já descuidado de Guerra na presença dele e entre o pai e a filha a relação já havia mudado com os pedidos de que ela deixasse o trabalho e passasse apenas a cuidar dos afazeres domésticos junto a sua mãe, apesar de discussões ser uma expressão forte para o que realmente acontecia já que na verdade eram cobranças de um pai com a filha que se calava e apenas postergava dando a desculpa de não haver uma substituta para o seu lugar sem contar que o pai nunca dissera o porquê do pedido e mantendo em silêncio as suas desconfianças quanto ao que ele julgava ser um abutre a cercar a sua filha, mas como não se pode atiçar o fogo e como tudo que é proibido é mais atraente e desejado e sabendo disso, o silêncio, e só o silêncio era a resposta do velho gaúcho as perguntas de Maria.

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