Declaração

Já estava fechando a primeira semana de abril quando no intervalo para o recreio das crianças a Professora Medeiros se dirigiu para os fundos da escola e se pôs a chorar e como era de costume o Professor Guerra que estava sempre a observá-la para tentar ver se obtinha um pouco de atenção dela. Não seria diferente nesse dia.

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A cena dela chorando o comoveu.

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Observou e sem muito o quê ter em mente ou qualquer tipo de desculpa masculina para se aproximar ele sentou-se junto ao banco que havia no local para os professores aproveitarem o jardim que a Diretora havia plantado nos fundos da escola, que no dia estava como o olhar da pobre moça, morrendo, este por causa do clima frio que se aproximava e já jazia as flores secas pelo chão e ela talvez figurativamente pelo mesmo motivo, seria um inverno na altura dos acontecimentos a mesma coisa que se separar daquelas crianças que estavam florescendo na vida com as primeiras palavras ensinadas pela professora que já havia conseguido se transformar em dona de si e em uma guia no caminho das crianças.

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Quem hoje em dia carrega um lenço sem estar devidamente gripado e quanto mais um limpo e com suas iniciais para entregar a uma moça chorando?

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Não foram necessárias grandes frases para romper o silêncio, bastou perguntar o porquê e nada mais para ela se abrir com um estranho e ele era exatamente isso até aquele dia, um estranho, uma pessoa totalmente diferente do que ela estava acostumada, talvez por isso e exatamente por esse motivo ela se abriu e despejou literalmente toda a tristeza e mágoa dos acontecimentos em família que estavam acontecendo.

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Todo o claustro que esta estava para enfrentar com os dias que estavam chegando foi algo que ele não esperava, sem saída, exatamente isso, foi como o Professor Guerra se sentiu.

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Não havia mais tempo, sem mais devaneios, sem mais palavras procuradas e encaixadas para o momento certo, sem escape, acuado como uma lebre numa caçada bem a moda gaúcha, as palavras sejam elas quais foram se perderam no tempo com os dois, mas toda “a verbe” de amante (por que não amante e se hoje si perdeu o verdadeiro significado da palavra não é culpa deles, pois cabe perfeitamente aqui) foi o que fez a moça pela primeira vez ver não mais o colega de trabalho e sim alguém que se declarara para ela pela primeira vez e não somente a primeira declaração dele também era a sua primeira declaração de amor recebida em sua vida e sendo algo novo e inesperado que ela não contava de modo algum naquele dia e vinda exatamente dele, irônico, o pai ser a causa que uniu a sua filha a uma pessoa que ele não queria para ela, a alguém que até um segundo antes dele começar a apresentar todo o seu carinho e afeto e talvez o principal naquele momento que foi a preocupação com que ela não deixasse o oficio que os dois escolheram como causa para defender por idealismo, por que ser professor é ser um idealista, ele era apenas um estranho colega de trabalho até antes daquele momento.

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Não pensem em cenas de entrega e de um beijo tórrido por que nada disso houve e a vida é sempre mais simples e objetiva, exceto para os escritores é claro, mas isso é assunto para outra hora, apenas houve um momento de sintonia entre os dois e aquele instante que não há como descrever e qualquer tentativa de explicar é tornar o fato menor do que ele é e só quem se apaixonou a primeira vista que sabe e sabe também que não há como dizer algo a respeito desse instante se quem nunca passou por esse instante ler isso tentar imaginar vai ficar só nisso, só na tentativa de supor os sentimentos que esse tipo de mágica envolve, espere o seu tempo chegar, não vou gastar pólvora em chimango, não o sabe, não há como sabê-lo, nem Freud explica quanto menos eu e como nessas situações o que ocorreu dessa vez foi o mesmo, o silêncio e o olhar disseram o que os dois sentiram melhor que toda a obra da literatura mundial, mas como tudo que é bom dura pouco, a sineta tocou, ela se levantou agradeceu e disse que precisavam continuar essa conversa amanhã, apenas consentiu com a cabeça e a viu sair, como é magnifica a visão de um homem quando vê a amada saindo desnorteada com o interesse declarado, alguns prazeres nunca se repetem e esse é um deles.

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<<<De março a abril de 1970 | Crime e Castigo>>>

 

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2 Respostas para “Declaração

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