Crime e Castigo

Traição, foram os olhos os culpados e de ambos, não foi necessário um aceno ou gestos e muito menos uma palavra, foram apenas os olhos que os entregaram para o “véio” Medeiros e de mais nada ele precisava, o Leonardo a olhar a Maria como se fosse a ultima despedida e Maria a escapar dos olhos de seu pai, durante o percurso que era relativamente longo e acidentado não houve uma palavra, nem uma sequer de ambos, ele para se controlar e não perder a calma que poderia ser escutada além dos vales pelo eco que no momento só ressoava o motor barulhento da rural e ela um misto de vergonha do que começara a sentir e mesmo sem entender o quê era já que sendo um sentimento novo para a moça pudica de interior, além do medo do que o pai já prometera a ela, tirá-la de vez do ofício sem se quer esperar a substituta.

ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ

Desceram como ficaram no carro em silêncio absoluto e entraram na sede da fazenda, um dos orgulhos do “véio” Medeiros, conservador, ainda mandou construí-la em estilo colonial português com suas amplas janelas e portas imensas, deixando o carro debaixo do parreiral que servia de sombra no verão, adentraram pela porta principal que levava a primeira de uma das salas da casa e passando pela outra sala o Senhor da Razão daquelas terras chegou à cozinha apenas olhou para a esposa que já estava com meio jantar pronto apenas esperando o regresso dos dois para terminar no horário em que chegassem e mandou a irmã caçula de Maria que ajudava na lida da cozinha para chamar o seu irmão que observava na ausência do pai os peões que cuidavam do gado (cerca de 200 cabeças) e da plantação que era o forte da propriedade com o cultivo de grãos (Arroz e Soja), apenas se sentou numa cadeira a beira da porta sorvendo o amargo chimarrão, tão amargo quanto a sua decisão que tomara e que levaria a cabo tão logo o seu filho chegasse, dando-lhe tempo até o regresso deste para preparar o cigarro com fumo de corda e com a palha do milho que mandava plantar apenas para tirar a palha na época certa e antes que terminasse de tragar o final de seu vício o seu filho regressou e pediu a benção beijando a mão de seu pai que o ordenou que fosse tomar banho e voltasse arrumado e vestido como missa de Domingo o mesmo ordenou ao caçula e continuou mateando solitário sem uma palavra e quando a sua esposa o questionou por que as crianças tinham que se arrumar ele apenas a olhou como se tivesse vontade de fulminá-la por ser culpada de todos os pecados do mundo e mais nada se ouviu senão o borbulhar das panelas.

ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ

Tão logo Maria adentrou a cozinha para arrumar a mesa o seu pai disse que hoje não precisava “ajudar” e que apenas se sentasse em uma cadeira perto do fogão a lenha e disse que permanecesse ali e ao término da frase entraram pela soleira da porta os peões da fazenda que com todo o respeito do medo pediam licença ao seu Senhor e Patrão e todos já de banho tomado como crianças obedecendo ao grande pai de todo aquele lugar e quando o ultimo entrou e mais jovem escutou um “pedido ordem” de seu anfitrião para que ajudasse no término do preparo da mesa com a colocação dos talheres enquanto a sua esposa buscasse os filhos para o jantar e assim o foi feito sem ninguém questionar ou fazer qualquer sinal de objeção.

ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ

Nem bem o rapaz terminou de colocar os talheres e toda a louça necessária assim como também as panelas com a comida à mesa a sua esposa retornou de modo apressado com os seus rebentos pelo braço que se sentaram e escutaram o pai daquela família pedir que o varão orasse em nome de Jesus agradecendo o dia de hoje,

“Senhor Meu Deus,

Abençoe a todos que estão aqui presentes,

Abençoe a Meu Pai, Abençoe a minha Querida Mãe,

Abençoe as minhas doces irmãs,

Abençoe a nossos irmãos juntos dessa mesa,

Agradecemos a todas as bondades e pelo dia de hoje

Agradecemos pelo amor que o Senhor tem por todos Nós,

Em nome de Jesus Cristo seu único filho e com a Graça do Espirito Santo.

Amém.”

todos fizeram o sinal da cruz e se serviram menos Maria que ainda estava no seu lugar designado e ela não ousaria sair de lá sem uma ordem dele.

ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ

Ele puxou a cadeira para perto da filha preparando a cuia para mais uma vez ser usada, de modo seco sem forçar a voz, não havia necessidade o local estava tão silencioso que as primeiras mastigadas dos peões que se apressavam para sair da presença dele se podiam ser ouvidas, disse-lhe a filha que a partir de amanhã ela não iria mais lecionar e que o problema da professora substituta ele ia resolver na parte da manhã diretamente com o prefeito, ela ficaria em casa para ajudar a sua mãe, quase ao mesmo tempo alcançou a cuia para a filha quase como um sinal simbólico de aceitação do que ele havia dito e que havia de ser concordado, tão logo ela aceitou a cuia e antes de tomar a primeira dose ela disse não e que iria continuar lecionando, o silêncio aumentou por que nesse momento todos pararam de mastigar e só se ouviu a mãe chamar a filha que recebeu novamente o mesmo olhar do seu marido e calou-se, só se ouviu a cuia cair no chão e o estalo do cabo do soiteira, o que se seguiu foi a primeira e derradeira surra que Maria recebeu para que nunca mais ela ou qualquer um dos presentes que se colocavam ali ousasse jamais questionar novamente o Senhor de tudo que existia ali.

<<< Declaração | A Substituta >>>

Anúncios

5 Respostas para “Crime e Castigo

  1. Pingback: Declaração | Quando estiver só...

  2. Pingback: A Substituta | Quando estiver só...

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s