Primeiro Desfecho

 

Se, as coisas sempre têm um se, se o meu avô não tivesse vindo um dia antes talvez nem eu tivesse nascido, mas ele veio.

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Era o primeiro sábado de julho e o frio era intenso, mas um dia seco e apenas o vento fazia companhia ao casal além de sua cúmplice, mas o descampado da frente da escola podia ser visto de longe e o vento como algoz encobriu o barulho do motor do carro da família Medeiros, o mais certo que fora apenas a certeza de que seria o último dia em paz e de guarda baixa e por isso nenhum deles esperava ver o quê viram, o demônio do medo dos dois descer do carro bem perto deles, bem a sua frente, acompanhado de outro fazendeiro da região que tinha ido acompanhar a quinzena de farras na Capital.

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Chegando perto ele apenas sacou da faca da bainha e colocando na garganta do seu inimigo, disse para nunca mais se aproximar de sua filha em uma ordem que dava para escutar a léguas de distância, mandou as meninas entrarem no veículo e sem pestanejarem as duas obedeceram, enquanto meu avô fazia a volta no carro.

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Em um ato de coragem Maria mudou tudo, a atitude que sempre faltou nela, enfrentar o pai, ocorreu naquele instante, o beijo, o único e definitivo beijo, o beijo de Eros e Psique, Medeiros só observou quando era tarde e o ato foi ligeiro em um átimo no tempo, uma poeira na história toda, mas o instante definitivo, Leonardo sem entender direito entre o gosto dos lábios de Maria, a entrada dela no carro e o olhar de eterno ódio do pai dela, nada se passou, foi como ver um quadro com três temas, foi tudo ao mesmo tempo sem chance para reação e quando se apercebeu o carro já estava se colocando em movimento.

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No ponto de destino do companheiro de viagem se despediram e com um pequeno não acenado com a cabeça do amigo de noitadas, Serafim Amurab, rompera com um único gesto o acordo que os dois “cavalheiros” haviam firmado na mesa de um cabaré em Porto Alegre, o casamento de Maria com Josué, o filho mais velho de Serafim, mas acabou antes do anuncio ser feito, Maria nunca percebera, mas Josué tocava sempre uma música numa flauta doce para ela nas festas entre as duas famílias, mas quando não é a pessoa certa, ela pode morrer por nós e não perceberemos, o choro no resto do caminho apenas servia para inebriar mais o motorista com o seu ódio.

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Descendo do carro, trancou imediatamente a porta do motorista e passou para o outro lado, mandando a pequena dama de companhia descer e todo o ódio da traição foi descontado na pequena Loreci que sem saber apanhou pelo mesmo motivo de Maria, uma filha traidora, um caso extraconjugal tinha dado à luz a pequena que sempre foi mantido em segredo tanto pela mãe quanto pelo pai bastardo e todos que com o decorrer da surra apareceram apenas se comoveram e não moveram um dedo por causa do medo.

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Maria, doce Maria, tentou inutilmente sair do carro para acudir a sua cúmplice de um pecado que não existira até que o pai retornará, mas nas duas vezes chutou a porta a jogando para dentro do veículo novamente e quase sem folego o algoz mandou que levassem a menina dali e a mandassem embora com a sua mãe e que nunca mais aparecessem na sua frente.

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Loreci e sua mãe se perderam no mundo.

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Em silêncio um sinal foi feito para Maria que agora tinha a liberdade para sair e receber todo o ódio que seu Pai lhe devotava naquele momento, sem pranto, as lágrimas que corriam foram anteriores pela amiga, desceu calmamente recebendo o castigo sem reclamações ou lamentos com apenas gemidos de dor e de vergonha, não a sua, mas de ter o pai que tinha, entre uma e outra agressão apenas rezava, primeiro pelo seu amado, que naquele beijo, selado e marcado com sua alma foi entregue o seu coração, depois, que tudo fosse o mais rápido possível e até a morte ela desejou naquele momento.

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Em único lance Leonardo agarra a mão erguida e puxa para trás quase derrubando o carrasco que se apruma como um general que recebera um golpe direto, mas em seguida retoma toda a sua altivez de senhor da guerra, Leonardo mais por instinto do que por sabedoria nessas situações se coloca como escudo diante de Maria, por um instante o pai de Maria abri um sorriso que com seu ódio nem escutou o Leonardo chegar com a sua lambreta, pequeno, mas um sorriso, e se lembra de tantos que já padeceram por suas mãos, de tantos mortos em suas emboscadas, de tantas lutas escondidas no seu passado e vê apenas um menino acuado na sua frente, no mesmo instante observa o ar de dor e sofrimento de sua filha, embora Guerra estivesse preparado para qualquer coisa naquele momento o que acontece seria a única coisa que ele não imaginaria, em alto e bom som, Medeiros declara que embora fosse o Guerra apenas um moleque sem noção de quem estava a frente dele e decretou de modo sumário que em um mês os dois se casariam e que a partir de então sua filha Maria deixaria de ser sua filha, apenas esperaria o tempo mínimo para que ela saísse de casa e que até lá os dois estavam proibidos de se verem.

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A vergonha de ter uma filha injuriada falou mais alto que o seu amor de pai.

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Mas para os presentes pouco interessava os motivos, apenas que a cena de tortura acabasse da melhor forma possível.

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