Sophia

 

“Filhinhos meus,

por quem de novo

sinto dores de parto…”

Sozinha, só a minha irmã está presente, foi antes do esperado e sem avisar que vieram as primeiras contrações, modestas, já tinham sido dois partos, mas o desespero de estar sozinha e sem ninguém presente, ninguém… Foi um final de tarde inimaginável sem a presença do meu pai que estava lecionando.

ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ

Apenas o silêncio da mata, no seu desespero, mas com o quê observará nas outras vezes, ela se preparou caso acontecesse o inevitável e separou o que precisaria e colocou a água a esquentar e panos limpos mais reservados para os primeiros cuidados com a criança do que consigo mesma, por entre uma e outra ação de preparação para o momento sentia a sua barriga a pesar como se acabasse de devorar um banquete inteiro, movimentos de ida e volta e sua barriga já estava dura.

ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ

Sempre se colocava a observar pela janela se alguém se aproximava da casa, mas nada, tudo em vão, apenas a dor a procurá-la, ninguém a escutar os seus gritos incontidos que são mais parecidos com pedidos de socorro para que aparecesse alguém tão somente para apertar-lhe a mão.

ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ

Já não há mais condições de sua permanência em pé e as dores lancinantes vão aumentando, sua voz rouca já lhe nega o desespero dos gritos e apenas consegue gemer, em uma ultima ida ao banheiro vomita apenas suco gástrico, naquela altura não havia mais o que ser expurgado, volta se arrastando pelo chão até a cama, cada movimento é como um batalhão infernal pisoteando a sua espinha, as dores nas costas são terríveis e em um último momento de forças erguesse até a cama e por um momento tudo passa, já perdera a noção de tempo que passara esperando a hora chegar, mas foi o bastante para uma tempestade se abater sobre o lado de fora com trovoadas, chuva forte, e ventos assolam a residência esquecida por todos naquele momento.

ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ

A solidão do desespero, nem a sua filha Regina chorando lhe faz companhia, quase que inerte pela dor nada mais lhe interessa por um instante deseja estar morta, por entre as contrações observa o brilho dos clarões que a tempestade cria e reza, como nunca em sua vida até aquele momento, reza pelo final e entrega nas mãos de Deus o seu destino e de sua tão esperada criança.

ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ

Horas se passam até que quase pontualmente a meia noite em um último esforço de um corpo totalmente exaurido pela dor e estagnado pela dolorida espera, totalmente entregue a suas próprias reações naquela contração de modo inimaginável consegue realmente iniciar o parto, mais uma dessas e termina, a esperança de Maria era essa, quase que drogada pela dor, ela força, mas sem resultados, seu fôlego que estava rápido, começa a pesar e ficar menos intenso, tudo vai acabar assim, mas como a natureza é mais sábia que nós, uma última contração acaba com tudo, nasce Sophia, mesmo que por uns minutos esquecida pela mãe que sem forças procura se recuperar, pela irmã que acabara dormindo mesmo com o barulho da tempestade e dos gemidos da mãe, Sophia chora, chora sozinha, nem a sua mãe escuta o seu pranto, mas está viva.

ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ

A velha lambreta ainda estava parada em um galpão abandonado a beira da estrada, enquanto a chuva não dava perdão a qualquer pessoa que ousasse enfrentá-la.

ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ

Quanto tempo se passou nem Maria sabe, quando conseguiu se mexer se arrastou até Sophia, levando a tesoura que deixara pronta sobre o criado mudo para cortar o cordão umbilical, com os olhos em prantos, trouxe para perto de seu peito a filha, algo que só uma mãe pode saber, nesse instante toda a dor, todo o corpo que fora derrotado pelo esforço, nada importava, apenas interessava ver os dedinhos procurando o corpo de sua mãe.

ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ

Apressou-se em cortar o cordão, limpa-me com uma toalha – que também estava estrategicamente posicionada – o corpo de sua nova princesa, Princesa Sophia, tudo estava certo, nenhum mácula no corpo da pequena, nem um mínimo sinal de que pudesse comprometê-la em sua vida futura, a mãe orgulhosa de mais uma jóia na família, oferece-lhe os seios para amamentação e sem pestanejar põe-se a sorver o colostro materno.

ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ ᵒ

P.S.: Dedico esse capítulo a minha filha que não nascerá. lfc

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