A noite do pouquinho

 

"…chegou à casa um freguês de caderno recém desembarcado do Aeroporto Salgado Filho"

   Um dia ainda vou escrever um tratado sobre o fascínio que as casas noturnas ou casas de garotas de programa exercem sobre a classe média, especialmente entre as mulheres. Mesmo que elas jurem de pés e mãos juntas que desprezam esse tipo de comércio. O fechamento da Tia Carmen, um lupanar da rua Olavo Bilac, em Porto Alegre, movimentou as redes sociais mais que o pedido de demissão do papa na sexta, e no sábado o efeito da tragédia da boate Kiss. A fiscalização entrou no modo duela a quién duela. Faltava a caixa d’água e mangueiras para combater incêndios. Engraçado. Mangueira deveria ser artigo abundante nas tias da vida.  E caixa d’água, bem nos velhos tempos assim eram chamados os pinguços.

   Acho que já contei a história real do lançamento de um filme na Gruta Azul, outro estabelecimento que é conhecido até no interior do Piauí. Não lembro o nome, mas a atriz era a Letícia Spiller. Para  seguir aquela história da pessoa certa no lugar certo, os produtores fizeram um auê na boate, com direito a cobertura da mídia e até da televisão guasca. O detalhe é que a casa não foi fechada para o público normal, o happy hour se dava num canto e a vida fluía normalmente no outro. E como fluía. Sucede que algumas socialites apressaram-se a comparecer na apresentação, que incluía discursos e autógrafos, aquelas coisas que fazem parte das misturas brega-chiques. Brega nunca pode ser chique, mas às chiques sempre se permite o brega, que muda de nome e vira fashion.

   Sucede que chegou à boate um freguês de caderno recém desembarcado no Aeroporto Salgado Filho, um paulista de Ribeirão Preto. Ao ver algumas pelancudas desfilando no corredor curvo que dá acesso ao salão, o sujeito chamou o sócio.

         – Ô Jorge, essa casa já teve mulher mais nova…

   Trágico foi  o caso de um executivo que durante anos insistiu que sua namorada o acompanhasse a uma incursão na Gruta. Ela sempre recusou, achava que aquilo era coisa de bagaceira, onde é que já se viu uma coisa dessas. E ele voltava à carga, quem sabe só uma entrada, aquelas coisas que se faz no melhor espírito "só um pouquinho", técnica que quase sempre se revelou eficaz na história da humanidade.

        – Eva, minha querida, ninguém tá vendo, só um pouquinho…

   Vocês sabem muito bem no que isso deu. Até hoje já nascemos com saldo devedor no cheque especial da vida, Como se o gerente do banco me desse o talão novinho em folha e dissesse que estou devendo R$ 10 mil já na largada. Voltando ao caso: de tanto o nosso herói encher o saco da namorada, ela finalmente concordou em entrar no tempo de luxúria, esbórnia e calaçaria.

        – Mas só um pouquinho, viu?

   Maravilha. Entraram, sentaram numa mesa um pouco mais afastada, ele pediu um espumante, beberam um pouco e esquentaram os tamborins. Não  demorou muito e uma das moças da casa perguntou se podia sentar com eles e bater um papo. Sim, disse ele, não disse ela, mas enfim a garota veio e sentou. Só um pouquinho,. jurou ela. Vou poupá-los dos detalhes, aquilo de sempre. Primeiro a timidez, depois os eflúvios do álcool desinibiram a namorada, o papo começou a rolar, mas ficou nisso, ou pelo menos assim  julgou o executivo. Uma champanhe e meia depois ele pediu licença para ir ao banheiro. Quando dobrou a curva que levava às toaletes lembrou que tinha esquecido do celular na mesa – era no tempo daqueles tijolões da Motorola e da Nokia. Fez 180 graus e no caminho de volta observou estarrecido uma cena que só imaginava ser boa se ele estivesse junto: a pudica agarrada na garota aos beijos, e de língua. Mãos e pernas trabalharam em baixo das mesas quando ele contava sua trajetória para as moças, que perfidamente esconderam o jogo e aproveitaram a ida dele ao banheiro para soltar a franga.

   E não foi só um pouquinho…

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O cifrão do doutor Getúlio

 

"…o ministro ignorava solenemente o significado das três letras"

   Em plena II Guerra Mundial, em 1942, o governo brasileiro decretou o falecimento do “conto-de-réis”. O Rei morreu, viva o Rei Cruzeiro, cujo longo reinado durou até 1967. Tinha na frente o Cr$. Com todas as trocas de moedas, o que nunca morreu foi cifrão, que remete ao dólar (U$), que por sua vez vem do tempo da cidade fenícia de Tiro. As duas linhas representavam as colunas de Hércules e o traço recurvo, entrelaçando as duas colunas, a união da colônia à mãe pátria.

  Agora, a lenda. Naquele ano, o ministro da Fazenda levou ao presidente Getúlio Vargas o decreto que instituía a nova unidade monetária, simbolizada pela abreviatura CRS – plural de cruzeiro. Getúlio ficou curioso.

      – O que significam estas três letras, C, R e S ?

Por não ter participado da equipe que criou a nova moeda, o ministro ignorava solenemente o significado. Para não ficar mal com o chefe, e lembrando que o mundo atravessava uma de suas piores crises, foi para o chutômetro.

     – Essa abreviatura, presidente, é uma homenagem que o Brasil presta aos grandes chefes militares: C de Churchill; R de Roosevelt e S de Stálin. Notório anticomunista, o velho Gegê impulsiva e energicamente riscou com dois traços verticais o S de Stalin.

     – Com os outros dois em concordo! Com o Stálin, nunca!

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